_Ei… psiu.. ei.. tô falando com você! Moça? Ei, moça?…
Olhei pro lado, ela me pediu pra parar, eu me aproximei da calçada e parei.
_Você está bem mesmo? Não quer ir pro hospital? Ele te leva, eu vou levando sua moto…
Olhei incrédula. Pq eu deveria ir para o hospital? Minha mente estalou. _Não, eu estou bem, obrigada!
Olhei em volta… Onde eu estava? De quem era aquela moto? Onde eu estava indo? Como eu saí de casa? Como eu fui parar ali? Como eu caí, o que aconteceu? Meu cotovelo sangrava. Respirei fundo, e com calma. Estava perto da universidade. “Estou indo ver minhas planta, é isso. Tenho que ir até a universidade” Tentei diversas vezes dar a partida, e nada. Meu joelho esqerdo doia um pouco. Dois jovens conversavam na calçada. _Moço, você pode me ajudar? A namorada dele não gostou, e perguntou o que eu queria.. _Eu não consigo dar a partida, me ajuda, por favor? Eles continuaram conversando. Minutos depois, viram que eu de fato não ia sair do lugar e foram me ajudar. Desci da moto, o joelho doía. Eles falavam comigo, e eu realmente não estava escutando. _Eu caí, moça, mas eu não me lembro de como! Eu não sei com vim parar aqui! E ela falava comigo, mas eu não escutava, minha mente tinha um turbilhão de imagens, coisas que aconteceram, coisas que eu não sabia se aconteceram ou se eu estava inventando, e coisas que eu estava inventando. Me lembrei da pancada, foi na rotatória, uma carro preto, a maçaneta era prateada. A sensação da pancada se tornou real, bem como o pensamento que eu tive naquele instante: “minha mãe vai me matar!”…
_Meu tio vai vir dar a partida – disse a moça
_Eu sofri um acidente, um carro bateu em mim! Eu não tenho carteira!
_Sorte sua meu tio não ser policial, então!
O tio deu a partida e, mancando eu voltei pra moto. Não me lembro da cara da moça, nem do moço, nem do tio. Minha mente continuava um turbilhão de lembranças e dúvidas, muita confusão, eu tinha que pilotar mais umas 8 quadras.. Entre estalos de inconsciência e de confusão, eu cheguei até a faculdade no piloto automático. Juro que não sei como, não me lembro. Mas eu me lembro da loucura que foi a minha cabeça, me lembro com perfeição. Enquanto meu corpo guiava a moto, minha cabeça tentava restaurar a memória… eu me perguntava o que tinha feito ontem, quem tinha me emprestado a moto, que hora e como eu havia saido de casa… algumas pessoas me vinham à cabeça, e a impressão que eu tive, foi de que todas eram irreais. “Meu deus, eu inventei todas essas pessoas, todas essas histórias, a minha vida toda era coisa da minha cabeça!!!” De repente, outro estalo, e eu acordei pra consciência. estava a duas quadras da universidade, e me perguntei como havia guiado do local onde o cara deu a partida até ali. Cheguei à universidade, desci da moto e não conseguia nem pisar no chão. Nem dobrar muito a perna. Doia muito. Ah! A moto é da Rosana! Atravessei a rua pulando. Ainda não sei pq cargas dágua estacionei do outro lado!!! sentei no chão, perna esticada, doía.
Os pensamentos confusos, reais, irreais, todos passavam misturados pela minha cabeça. Meu cotovelo sangrava, os ombros também estavam ambos arranhados, o esmalte vermelho do meu dedão da mão direita ganhou um enorme descascado. Minha calça estava suja, mas não rasgada. A moto, nenhum arranhão. UFA! Essas coisas práticas, físicas e reais disputavam o foco da minha atenção com a confusão na minha cabeça. A Mayra, a Mayra foi invenção minha esse tempo todo! Não, eu inventei ela nesse breve momento de insanidade do acidente, eu não era louca, eu fiquei louca agora, e já estou voltando ao normal! O acidente! Me lembrei de mais coisas sobre ele. O rapaz do carro parado perto de mim, a voz dele me perguntando se estava tudo bem me fez acordar. “Sim”, respondi. Tive medo, e mexi os dedos das mão e os pés. Tudo estava mexendo, mas eu simplesmente não conseguia me levantar, por mais força que fizesse. Meu joelho doía.
_Me dá a mão, vou te ajudar – O moço me puxou pelos braços e me pôs de pé. _Quer que eu televe ao hospital?
_Não, eu estou bem, pode deixar, pode ficar tranquilo. Disse isso e andei até a moto, que já estava de pé. Disse a ele pra prestar mais atenção à sinalização, e perguntei se ele havia tirado a habilitação em Goiás.
Não consegui restaurar a memória de nada do momento do acidente até o local em que ele e a moça me pararam pra perguntar novamente se eu estava bem, perdi uns 500 metros de memória.. hehehhe
A Mayra! minha mente voltou a pensar nela. Não, a pessoa é real, o namoro que é uma loucura! A menina mora longe, de onde vc tirou que vocês namoram? Que ridículo! A menina te dá atenção um minuto e você acha que já está namorando? Abri a agenda do celular. Maira. Estava lá! Ela é real! Liguei, e minha prima atendeu. Desliguei sem dizer nada, decepcionada. Ela não existe. Vinha à minha cabeça a imagem dela, com a blusa de ovelhinhas, na web cam, fazendo uma daquelas caras engraçadas de mau humor… Meu deus, isso é coisa da minha cabeça! Liguei pra Dani, pedi pra falar com a Rosana. Disse a ela que tinha caído de moto, e que tava tudo bem, mas que estava com o joelho doendo, e pedi pra ela ir me buscar. Mayra! Mayra é com Y! voltei à lista na minha agenda, e achei o número da Mayra. Ela existe! Liguei pra ela totalmente confusa, e perguntei se a gente tinha conversado naquele dia, e fiz algumas outras perguntas. Constatei que tudo sobre ela era real, UFA! Tentei levantar, tentei dobrar a perna. A realidade e a loucura na minha cabeça me atormentavam. O Extra, eu realmente tinha ido ao extra no dia anterior. Tempo verbal, não existia. Passado, presente, futuro, eu simplesmente não conseguia ter noção de tempo, meio segundo depois que eu liguei pra Rosana, ela chegou. Eu não contei da confusão, me concentrei muito pra não desviar a atenção do que estava falando, e pra parecer bastante lúcida. Disse que tinha sofrido o acidente e que estava bem, mas que precisava de ajuda pra ir pulando até a casa de vegetação olhar minhas plantas. Minha pressão foi caindo, e eu caindo junto, elas me seguraram. Um sr numa caminhonete parou, elas me enfiaram na caminhonete e foram comigo ao hospital universitário. Me deram remédio pra dor e me mandaram pra casa. No tempo que passei esperando atendimento, recuperei totalmente minha memória dos dias anteriores, consegui me lembrar do momento em que saí de casa, e da noite anterior, do dia anterior, das pessoas reais e afins. Antes de ir pra casa, eu fui pulando ver minhas plantas. No dia seguinte, fui a um médico decente, e descobri que fraturei a tíbia bem no ponto de inserção do ligamento cruzado anterior. E foi assim que ganhei sete pontos, em um corte e três furos no meu joelho.
Experiência sem dúvida mais louca da minha vida.