Hoje vou contar uma história diferente. Diferente porque é uma história sobre lésbicas, mas sua orientação sexual não é o foco da história. Podiam ser dois homens. Podiam ser um homem e uma mulher. Podiam ser Eros e Psiquée. Mas eram Rafaela e Flávia.
Rafaela era uma moça alta, bonita, usava aparelho nos dentes e sempre uma presilha no cabelo. Fazia Matemática, mas adorava português. Literatura. Lia muito, adorava especialmente mitologia. Era um pouco preguiçosa, mas no fim acabava por fazer tudo o que precisava fazer, mesmo que de ultima hora, virando madrugadas para entregar os trabalhos, sempre impecáveis. Era muito segura e tranquila, não era muito ciumenta, nem muito carinhosa, também. Amava a namorada, Flávia, mas não era do tipo que fazia surpresas e declarações.
Flávia era linda. Uma morena baixinha, vaidosa, sempre muito bem arrumada, simpática e sorridente. Cursava odontologia, e era extremamente dedicada, sempre fazia as coisas com antecedência, pois não tinha muita facilidade com as matérias. Era muito ciumenta, um pouco controladora, extremamente romântica, adorava fazer surpresinhas, tentava não deixar o relacionamento cair na rotina, fazia de tudo pra que Rafaela sempre soubesse o quanto era amada.
Rafaela era mais independente e mais madura, era quem tomava as decisões mais responsáveis, embora às vezes exagerasse. Flávia era mais impulsiva e um pouco mimada, mas era quem se doava mais, embora às vezes sufocasse um pouco.
Era uma quinta feira. Flávia chegou às 19. Rafaela havia feito uma lista de reprodução muito legal com as músicas preferidas das duas, pra namorarem ouvindo. Não pela namorada, talvez, mas porque ela gostava. Elas se abraçaram, não se viam desde domingo, não com a paixão dos casais novinhos, mas com braços cheios de carinho, e uma coisa boa no coração, meio que um sentir-se em casa. Assistiram a um filme de Capra que Rafaela baixara da internet, Flávia não gostou muito, preferia comédias românticas. Depois comeram nuggets, desceram à esquina pra tomar sorvete, voltaram pra casa e se deitaram juntas, ficaram conversando um pouco, Flávia falava sem parar, Rafaela ouvia com atenção, mas não falava nada, não comentava, mal respondia. Não havia o que dizer, ela sabia que Flávia não queria respostas pras suas perguntas, só queria externar as perguntas. Se amaram ouvindo a playlist, e ficaram abraçadas depois. Flávia apertou Rafaela com gana, soltou, deu um beijo no rosto. Ficaram em silêncio. Depois perguntou:
_Onde você estava ontem? Te liguei depois da sua prova…
_Fui pra um bar com a galera da faculdade. Comemorar o fim do período, nossa, última prova, finalmente o…
_Se você ficou livre por que não foi lá pra casa?
_Eu tava cansada, dormi duas horas só noite passada. Só o que eu queria era tomar alguma coisa, chegar em casa cedo e descansar…
_Poxa, sempre que eu fico livre na faculdade venho correndo te ver! Você não podia descansar na minha casa comigo? Bar é lugar de descansar?
_Ah, linda, eu não queria pegar metrô, ônibus… Só queria uma noite de paz. Fiquei uns trinta minutos no bar, só.. O tempo de tomar uma caipirinha. Eu estava cansada. Também, eu sabia que você ia vir hoje, então não me preocupei, já que a gente ia se ver logo, mesmo. Eu também estava com saudade, tá?
_Tá, né…
_…
_Quem estava no bar?
E começaram a brigar, porque havia uma menina com quem Rafaela já havia ficado, no bar. Coisa do passado. Flávia sentia o ciume apertando o peito. Ciume é mesmo uma coisa irracional. E Rafaela tentava argumentar, mas não havia o que dizer, ela não tinha culpa, não fizera nada de errado. De repente levantou-se da cama, interrompendo a discussão.
_Onde você vai?
_Embora.
_Embora pra onde? Você está na sua casa!
Mas Rafaela não deu ouvidos. Abriu a cortina, abriu a janela, colocou o pé no parapeito.
_O que você está fazendo, sua doida? – Flávia pensou que fosse alguma brincadeira. Rafaela era uma pessoa séria e sensata, nada no mundo faria ela se jogar do terceiro andar.
_Flávia, o amor não vive sem confiança.
Ficou em pé na janela pro lado de fora, pulou. Abriu as asas e desapareceu por entre nuvens de fumaça do céu de São Paulo,

O mundo animal é cheio de perigos, e também cheio de maneiras de se livrar desses perigos. Alguns animais se camuflam, outros mimetizam (aparentam-se com outros animais mais ofensivos), outros fazem tanatose (fingir de morto), dentre outras tantas técnicas. Eles evoluiram aprendendo a lidar com esses perigos. De repente entra o homem nesse meio e, eventualmente, se ferra.

Costumo dizer que Minas é o Estado do meu coração, pois foi onde comecei a construir a minha vida sozinha, foi onde começou a minha independência e a minha aprendizagem, e as minhas experiências, e blah blah blah…
