A menina e o carrasco


Chorava. Escorria-lhe pela face, tingia já as rotas mangas, de um encarnado sujo. Olhava a seu redor… os tecidos baratos, de um colorido mentiroso da Costa… cacarecos pelo chão, a velha cama de colchão de molas… a madeira rude da mesa bamba… o plástico barato e desbotado das flores num vaso lascado. Um gosto amargo na boca, gosto de ferrugem, era sangue. Pelas pernas, um poco, também… Não era dele, era dela… mas era dele também… Seu peito apertava, a garganta dava nó, feito mão bem grande apertando a goela… Abriu os olhos… Era mesmo um nó, não havia ninguém ali, nenhuma mão. Medo. Esperava que ele não voltasse… Fechou novamente os olhos e pensou bem forte… Quis bem forte… Ele, lá fora, fumava um cachimbo velho e fedorento, andava no ruma da estrada de terra. Uma volta, só… Satisfeito, ia olhando a lua. Ela, lá dentro, olhava pela janela… A fumaça do cachimbo brincava por vezes de fazer imagens na frente da lua. E a fumaça ia ficando mais apagada, e a menina quis que só naquela noite ela não voltasse. E foi querendo, bem forte, e a lua foi fazendo eclipse nos olhos da menina, que logo se fecharam, e ela adormeceu querendo.

4 Respostas para “A menina e o carrasco”

  1. Nossa que triste!
    Ainda mais porque eu ouvi dizer que quando a gente ‘quer bem forte’, a gente consegue.

    Bjs!

  2. Lindo e triste! Amei esse texto… combinou com meu estado de espírito de hoje! :]

  3. sombrio
    mas gostei
    um pouco triste tbm
    parabens pelo blog
    quando puder passa la no meu:
    http://coisasethings.blogspot.com/

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