Meu contato com o mundo dos surdos foi muito breve. Antes de me encantar com a mímica e a mágica da Danielle, eu não sabia o que era a surdez, socialmente falando. Nosso breve romance ficou registrado nesse humilde blog com uma breve poesia, postada em 3 de novembro de 2008, e que eu reproduzo nesse momento:
Tem um sabor sublime a sua pele
silenciosamente deliciosa…
Nem é preciso palavras, Danielle!
Mostrei a ela, mas ela não compreendeu, porque ela não sabe português, só sabe LIBRAS. E eu tentei aprender LIBRAS pra falar com ela, mas o máximo que consegui foi um português sinalizado. Português, português sinalizado e LIBRAS são idiomas totalmente distintos. E porque eu não soube explicar, nem ela soube compreender, em um mês, a gente se desistiu.
Mas como ser a mesma, depois de conhecer um mundo novo? Digo um mundo novo, porque há um abismo cultural, educativo, social, político e etc entre esse mundo em que vivemos, e aquele, a que, trocadilhos infames à parte, ninguém dá ouvidos.
Desenvolvi projetos educacionais voltados aos surdos, e mobilizei os meus colegas, futuros possíveis professores. Se seremos educadores, precisamos saber ensinar a todo público. O Brasil não é um país de um só idioma, e os surdos têm direito à mesma educação que qualquer alun ouvinte. Um dos meus projetos para um futuro próximo é me especializar, aperfeiçoar a minha proficiência em LIBRAS, e dar aula para crianças surdas. Por agora, não tenho podido fazer nada por eles, mas não os esqueci.
Porque outros compromissos me impedem de me envolver em tal projeto nesse momento, pensei estar temporariamente acabada minha contribuição para com os surdos, mas voltei a utilizar meus conhecimentos muito mais cedo do que eu gostaria. Após um fatídico acidente, uma pessoa muito próxima e muito querida perdeu a audição. O começo, é doloroso e revoltante. Cheio de incertezas, de questionamentos, da falta de hábito, e poxa, da falta de audição! Como eu havia estudado muito a surdez física, a surdez social, LIBRAS e coisas relacionadas ao universo do surdo, pude orientar e sei que fui um enorme conforto naquele momento difícil.
Mas hoje, me lembrei dos surdos e quis escrever isso, porque eles me deram um maravilhoso presente: uma nova, mágica e maravilhosa forma de vê-los. No terminal central de ônibus urbanos, um grupo de quinze ou vinte pessoas conversava, e nenhum ruído se escutou. E eu não senti a angústia das palavras que não saem, da comunicação esmurrando as paredes e as barreiras do corpo, não senti a aflição da incompreensão. Por alguns minutos, observando-os, sem perceber, deixei de escutar o barulho dos ônibus, das pessoas, dos vendedores, do mundo. Eu assistia a uma sinfonia teatral, orquestrada no silêncio da mudez, e ao sabor dos demais sentidos. Com o balanço do corpo, das mão, da expressão. Não é a boca, é todo o corpo que fala, em harmonia.
Aprendi a parar de querer escutar boca.
Obs. Fotografia do Mímico Marcel Marceau, retirada da página no jornal O Globo.




